Resident Evil: Requiem

Um estudo narrativo sobre cenas tensas

Presa

Não…

NÃO!

Acordo num estalo, meu corpo ainda tentando se desvencilhar das mãos daquela… coisa. Mas uma luz branca -- forte, daquelas de hospitais -- bem em cima do meu rosto me mostra um cenário oposto ao hotel moribumbo que eu estava.

Não tenho ideia de quanto tempo passou ou para onde o cara deformado foi, eu só… sinto que preciso recuperar o ar.

Estou viva.

Tá.

Viva.

Isso… é bom, certo?

Mesmo que o ar esteja me sufocando.

Quente, abafado.

O tecido de algodão da camiseta gruda no suor da pele. Mal consigo diferenciar se as gotas que sinto escorrendo por meu braço são do sangue do meu corte ou apenas suor.

Aos poucos, os sentidos vão voltando.

O gosto da saliva pastosa me faz tentar engolir em seco e eu mal consigo fazer isso. O líquido estaciona em minha garganta, insistente.

Tento mover um dos braços. Com o movimento, a ponta de uma agulha coletora de sangue pinica minha veia.

-- Mas o que…? -- sussurro, tentando trazer o braço para perto, mas… Ele mal se mexe.

Ah, que merda.

Estou presa.

Braços e pernas.

Completamente Strapped a um tipo de… maca? Cintos, faixas, tudo apertando meus membros a ponto de senti-los latejar. E então, me dou conta de que estou amarrada à tal maca.

De ponta cabeça.


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-- Oi! Socorro! -- grito, apesar dos pulsos de dor da minha garganta.

E que ideia estúpida, eu sei.

Eu só… não tenho ideia de quanto milkshake perdi -- assim, revirada, para esgotarem todo o líquido de dentro de mim o mais rápido possível.

Por quanto tempo fiquei desacordada?

Quanto tempo ainda tenho até que eu desmaie de novo?

Quanto tempo até o cara deformado perceber que acordei e vir até mim?

Ah, merda.

Ideia de merda.

-- Não, não, não, não… -- gaguejo baixinho, como se isso pudesse engolir de volta os meus gritos anteriores.

Não adianta.

Tenho que ficar calma.

Fica tranquila.

Calma.

Pensa.

Pensa, Grace. Pensa!

Estou sozinha.

Não é um hospital, apesar de tudo. É uma sala de estar que, se não estivesse servindo como calabouço para drenar o milkshake de uma mulher sequestrada, poderia ser interpretada como aconchegante por um casal de aposentados.

O ploc-ploc das gotas vermelhas dentro de um frasco de pelo menos um litro me chama a atenção.

O frasco é de vidro.

Tá. Calma.

Meus dedos alcançam a mangueira de dreno e eu o puxo. O suporte cai e o vidro se estilhaça pelo chão.

Ainda com uma das pontas do vidro quebrado preso à mangueira de dreno, vou puxando pouco a pouco, com dificuldade. Receio que os dedos trêmulos acabem derrubando a mangueira e, com isso, minha única esperança de escapar.

É difícil de enxergar.

Minha cabeça pulsa com dor. A pressão em meus olhos aumenta, simulando uma daquelas enxaquecas que brincam com a ideia de que vão explodir seu cérebro.

Só que pior.

Muito pior.

Tudo isso deixa de importar quando alcanço o vidro e o agarro com força.

O ângulo é estranho. Difícil.

Mesmo que eu tenha que deslocar meu pulso, vou cortar essa merda de faixa.

E começo com o movimento de vai e vem.

O vidro percorre o caminho por cima da amarração. De novo, e de novo, e de novo. Cortes atravessam minha pele. O líquido quente escorre. Pinga no chão -- um breve efeito colateral do que precisa ser feito -- até que eu rasgue o strap desta mão.

Com uma mão livre, consigo abrir a outra.

Arrancar a agulha.

Mover o quadril.

Abrir o cinto ao redor da minha cintura.

Músculos latejam. A cabeça pulsa. Os cabelos continuam balançando, caídos de ponta cabeça.

Tento me erguer para abrir os cintos que estão prendendo meus pés, mas não encontro forças para conseguir. Pontos brancos começam a enublar minha visão e eu logo desisto.

Não posso desmaiar. Não agora.

Sendo assim, firmo os dedos ao redor do metal de ambos os lados da maca e cachoalho.

Zigue. Zague.

De um lado para o outro até despencar para um deles, estatelada no chão.

Uma fisgada de dor eletrifica minha coluna. Por um momento, acho que não vou conseguir me levantar.

Mas consigo.

Sento. Abro as amarras dos pés.

E me liberto dessa porra de maca.

Autora: Bia Bizaio

Data de postagem: 03/03/2026